terça-feira, 17 de abril de 2018

Mães Em luta: um conversa sobre a responsabilização de adolescentes e justiça

Nesta edição, conversamos com a Cearense Ariadne Oliveira, que é costureira, Mãe, tem 36 anos e a cinco anos faz parte do grupo de mães do Socioeducativo organizado pelo CEDECA – Centro de Defesa das crianças e dos adolescentes do Ceara.
Grupo de Mães, Ariadne  é a primeira da direita para esquerda
Campanha ANA: Qual foi/ é sua relação com as Medidas socioeducativas, e como você avalia o sistema?

Ariadne Oliveira: Desde 2013, quando meu filho de 13 anos foi apreendido.   Primeiro ele passou 20 dias, saiu de lá e rescindiu, passou 45 dias dentro do centro de internação, novamente é posto em liberdade e rescindi, foi quando então o juiz sentencia ele a para cumpri de 6 meses a três anos o regime de Privação de liberdade. Desde as primeiras vezes, ele já sofria agressões dentro dos centros de internação. Como eu não entendia nada, eu via ele machucado e vinha embora e começa a chorar.  Foi só então da última apreensão dele que eu conheci o trabalho do CEDECA – CENTRO DE DEFESA DAS CRIANÇAS E DOS ADOLESCENTES. Nessa época o CEDECA estava recebendo muitas denúncias de agressões contra os adolescentes. Então foi ai que eu comecei a participar das reuniões e estou até hoje.  E o que eu comecei a perceber que para o meu filho foi só momentos de perdas. Cada negação de direito que ele tinha dentro do centro ele se transforma numa pessoa pior e sem perspectiva.  E avaliação que eu tenho desses três anos do sistema socioeducativa é de que é um “deposito” de adolescentes.  Pois o que realmente o socioeducativo deveria oferecer aos adolescentes não estava sendo promovido aos adolescentes, ou seja, o social, educativo, o Plano de atendimento individual(PIA)e sim deles saírem do sistema com outros pensamentos de vida. E que na verdade estavam sendo submetidos a torturas, pelos agente socioeducativos e pela polícia.  Meu filho cada vez que saia do sistema ele saia com menos perspectiva de vida, por isso eu avalio como um deposito.  O que dar a entender, é que eles estão preparando os adolescentes para cair no sistema prisional.  A minha experiência foi muito ruim, eu tive que abrir dez boletins de ocorrência em função das agressões físicas sofridas pelo meu filho lá dentro e as ameaças. Para mídia é mostrado uma coisa, mas quem está dentro do centro socioeducativo é outro.  Em 2016 houve muitas rebeliões nos centro de internações, pois adolescentes ficam sem agua, sem comida e em condições precárias, e isso era motivos para que eles se rebelassem.  O meu filho sofreu ameaça, e na primeira oportunidade que teve ele fugiu, fiquei desesperada, sem notícias dele durante oito dias. Ele foi assinado.  Eu culpo o estado pela morte do meu filho, pois ele estava nos cuidados do estado.  Ou seja toda uma trajetória de direitos negados.

Campanha ANA:  O País tem mais de 26 mil adolescentes em unidades de restrição e privação de liberdade. Segundo levantamento divulgado no início deste ano pelo Ministério dos Direitos Humano. O que acha dessa ideia imposta na população de que adolescentes não são responsabilizados?

Ariadne Oliveira:  Eu acho que os adolescentes são punidos sim. E eles não são punidos só pela justiça de ser privado de sua liberdade.  É mais do que punido pelas agressões que são submetidos, pelas discriminações da sociedade.   Fico muito indignada quando a mídia fala sobre as medidas de forma errada.  Quem está próximo ao socioeducativo é quem sabe o quanto eles são punidos.  Falam   que os adolescentes tem vida boa no cumprimento da mediada, que cada adolescente custa 1400 reais e que estão cheio de mordomia. Mas ninguém diz que esses recurso não chega, que as condições que  Esses meninos e meninas estão sendo responsabilizados quando lhes tiram o direito de ir e vir, mas isso não significa que os outros direitos não tem que ser acessado.   
meninas e meninos cumpre as medidas, tão longe do que seria o ideal do que está previsto do estatuto. As pessoas tem um ideia errada de responsabilização.

Campanha ANA:  61,03% dos adolescentes e jovens em restrição e privação de liberdade, foram considerados negros, segundo o que mostra o levantamento, e que a maior parte - 96% do total - era do sexo masculino, sendo que 57% tinham entre16 e 17 anos. Para você, qual seria a motivação para que os adolescentes negros e pobres, sejam a maioria a cometerem ato infracional?

Ariadne Oliveira: Esse índice de adolescentes negros e pobres, tem a ver com a realidade de que adolescentes branco e de classe média nunca chegam na porta de uma delegacia.  Se esse adolescentes Brancos e de classe médias são aprendidos, rapidamente eles terão um advogado para defende-los. Infelizmente a nossa população pobre, mães solteiras que precisam sair para trabalhar e deixar o s filhos à mercê de qualquer um
A maioria dos adolescentes negro. Então eu penso sobre isso é que alguns tem oportunidades e outros não tem.  

Campanha ANA:  Desse 26 mil adolescentes em situação de restrição e privação de liberdade, 61,03% deles são negros e no total 96% são do sexo masculino e 57% tinham entre 16 e 17 anos. Segundo esses mesmos levantamento. Para você, qual seria a motivação para que os adolescentes negros e pobres, sejam a maioria a cometerem ato infracional?

Ariadne Oliveira: Os adolescentes eles se iludem muito em relação ao ter. Ter um roupa, de poder   No meu caso do meu filho, eu sempre fui pobre. Sempre tive que trabalhar para sustentar minha família, e eu não podia dar ele uma vida que ele merecia.  E quando ele chegou na adolescência ele começou a se iludir com esse vontade de ter o que não tínhamos condições de ter. E é ai que são cooptados por caminhos “mais fáceis”. Muitas vezes pela falta de critica a esse sistema que valoriza as pessoas pelo que elas tem e não pelo que elas são.  E na maioria dos casos, os adolescentes negro e pobres as pessoas que precisam ter para ser.
sair, de ter dinheiro...

Campanha ANA:  Em relação a tudo esse processo que você viveu junto com seu filho, qual seria o momento mais difícil que você teve que passar em meio a tudo isso?

Ariadne Oliveira:  Como eu disse, eu sou costureira.  Essas passagens do meu filho nos centros socioeducativo mexeu muito comigo sabe? tive que sair onde eu trabalhava.  Tive que restabelecer de uma outra maneira para pode acompanha mais a vida do meu filho. Meu sonho era ter ele todo temo ali comigo, que ele pudesse mudar.  Meu maior sonho era que eu tivesse conseguido resgatar meu filho.  Nesse tempo todo de luta que lutei pela vida do meu filho, eu estava sempre junto com as pessoas do CEDECA, e que hoje fazem parte da minha família. Eu não tenho mais o meu filho para tentar lutar e fazer diferente e mudar esse sistema, mas eu apoio as outras mães e a ajudo elas a realizar o que eu não pude realizar como meu filho, de torna-lo um cidadão.  Até hoje eu tento me reestrutura da morte do meu filho.
 Campanha ANA:  Na maioria dos casos de adolescentes em cumprimento de medidas, são as mulheres que ficam como referência desse adolescentes.  Por que os homens rejeitam ou não querem esse assumir esse papel?  

Ariadne Oliveira: Como eu disse para você, a maioria das mães são mães solteiras. Ou são abandonadas e criam os filhos só. E os pais estão presentes na família e acontecem essa situação dos adolescentes serem apreendidos, eles nunca querem assumir que são os filhos deles. Sempre joga para mãe.  “Tome que é teu filho”, eles nunca querem ter a responsabilidade de que os filhos devem ser cuidados pelos pais e pelas mães.   No caso do meu filho, eu sempre fui mãe solteira, e quando aconteceu com o meu filho eu fui a procura do pai dele para me apoiar nessa situação, e um cara que trabalha com projeto sociais, não foi nem um pouco sensível a situação do filho que ele nunca reconheceu, e nem se sensibilizou pelo ser humanos que meu filho era.  Isso tem a ver com machismo presente na nossa sociedade, e eles sempre jogam toda essa responsabilidade para mãe.

Campanha ANA:  O que o Estado deveria oferecer a essas mulheres que de alguma maneira, mudam sua rotina para reconstruir laços com os adolescentes em restrição e privação de liberdade?

Ariadne Oliveira:  Olha infelizmente não podemos contar com estado com nada.  E essa apoio de fato não virá do estado, pois as preocupações não é na ressocialização dos adolescentes, se vão ficar vem bem, mas a preocupação é em criar espaços para manter esse sujeitos presos. Ou seja tem um lucro sendo gerado aí, e que não é para população pobre que esse lucro vai.  E se tivesse programas que apoiassem essa mulheres, acredito que os laços familiares seriam mais facilmente restabelecidos.

Campanha ANA:  Aproximar as famílias contribui para que os adolescentes cumpram as medidas socioeducativas e ressignificar seus atos?   Em qual sentido contribui? 

Ariadne Oliveira: Existis o PIA (Plano Individual de Atendimento) no sistema socioeducativo. E cada adolescente era para ter aquele acompanhamento, a família ser chamada, o pai e mãe para saber o que ele gosta, o que ele faz quais problemas ele tem...  E é nesse plano que deveria estar essas condições, se a família tem condições de apoiar o adolescente, saber quais os risco aquele adolescente corre. E isso deveria ser feito desde o momento que o adolescente entra no sistema até o momento do desligamento, mas isso não ocorre.  Então deviria usar mais desse plano. Pois é muito importante a presença e o apoio da família.  Que nesse tempo da privação de liberdade a família estivesse sempre presente. Isso mudaria muito a forma de como eles cumpre as medidas dentro e o seus pensamos aqui
do lado de fora.

Campanha ANA:  Como as instituições podem contribuir para diminuir o encarceramento de adolescentes e jovens negros?

Ariadne Oliveira: A melhor contribuição seria dando oportunidade aos jovens. Pois quando os adolescentes saem do sistema, eles não conseguem emprego, cursos profissionais.
Imagem retirado do Site ponte.org - Ilustração: Talles Rodrigues 
Se essas organizações conseguissem dar mais oportunidade tanto aos adolescentes que passaram pelo sistema como os que não entrado. Diminuiria muito o índice de encarceramento.  E que as organizações deixem de estigmatizar esses adolescentes que passam ou passaram por medidas de responsabilização. Esse apoio nessa quebra de preconceitos seria muito importante.

Campanha ANA:  Algo mais que gostaria de acrescentar?

Ariadne Oliveira:  Meu sonho é que a gente, esse grupo de mães possa fazer, que Estado olhe mesmo para os adolescentes, pois acho que é neles que a gente precisa tentar mudar quando estão ali no Sistema Socioeducativo, para não se torna o caos que fortaleza e o Brasil está.  





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quarta-feira, 14 de março de 2018

Envelhecer LGBT, uma realidade possível com desafios constantes.


Campanha ANA: Anyky, poderia compartilhar um pouco de sua história conosco?  Suas conquistas, desafios, enfim o desejar dividir conosco.  

Anyky Lima: Sou Anyky Lima, Travesti, tenho 62 anos, sou carioca, moro em Belo Horizonte a 32 anos. Sou Ativista LGBT, vise presidente do CELLOS-MG (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual) e representante da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) em Minas Gerais.
Minha história de resistência começa no início da minha adolescência, quando fui expulsa de casa aos 12 anos de idade. Morei na zona (bordeis), na cidade de vitória-ES durante 8 anos, depois voltei para o rio de janeiro.  Na rua batalhei até quase os 50 anos de vida, foi então que montei uma casa, uma pensão, cálculo que na minha casa deve ter passado cerca de umas 10 mil meninas. Tiver a retificação do nome social aos 60 anos... Minha é luta cotidiana. Fui ameaçada de morte várias vezes por incentivar as meninas a abrir uma conta no banco, a poupar o dinheiro que ganhavam na batalha, a tirar documentos, a cuidar da saúde, a frequentar escola...  Comecei meu trabalho assim incentivando as meninas a acessar todos esses espaços, e muitas delas hoje, tem seu próprio salão, ganham dinheiro com outras coisas, algumas ainda continuam na prostituição. E por isso eu luto para que nós da comunidade trans sejamos reconhecidas como seres humanos.  Penso que quando as pessoas começarem a reconhecer travestis, transexuais e homens trans como seres humanos esse será um grande avanço. Claro que já tivemos algumas conquistas, costumo dizer que a gente não quer privilegio queremos acessar nossos direitos como qualquer outro grupo.     

Campanha ANA:  Desse 62 anos de vidas o que destacaria como um desafio e o que destacaria como uma grande vitória?


Anyky Lima:    Minha grande vitória nisso tudo foi ter passar por tudo que passei, ter sido expulsa de casa muito nova e não ter me contaminado com HVI, sou de uma época que a cultura da camisinha inexistia.  E sobrevivido a tudo.  Pois se vocês me perguntarem como eu sobrevivi, eu nem sei explicar.   Morei na rua, na zona e a violência sempre foi muito grande. Às vezes eu deito na cama e fico pensando como foi que consegui sobreviver... Envelhecer é muito bom mas você vê muita coisa triste, muitas amigas minhas assinadas por transfobia, mortas por HIV/AIDS.  E são poucas de nós que chegam aos 62 anos, muitas morrem antes dos 35 anos de vida, sou uma pioneira mas esse é o maior desafio, conseguir que mais travestis, trans e homens trans cheguem a essa minha idade, ou passar disso sabe? Lidar com essa violência ainda é um grande desafio.  
Na minha época o maior desafio era a polícia, eu sou da época da ditadura militar e tudo que fazíamos era motivos de ser presos. Nessa época teve situações de sermos pressas durante toda a semana, e não tínhamos como trabalhar.

Campanha ANA:  Envelhecer no Brasil é quase um sinônimo de que não se pode mais nada.  Trabalhar, se divertir, manter relações sexuais e muitas outras atividades. Você concorda com isso?   Ou isso é um preconceito dos mais jovens em relação as idosas e idosos?

Anyky Lima:  Os brasileiros são muitos preconceituosos com tudo, principalmente como os idosos. No nosso país a impressão que tenho é que nós idosos são descartados. Por exemplo na comunidade LGBT’s quando se chega dos 40 aos 45 anos, começam os apelidos (Maricona). E a população mais jovem acha que o idoso não tem direitos... Direito a dançar a se divertir, a ri, a viver e etc...  As gerações mais novas esquecem que essa pessoa idosa, seja qual for sua orientação, traz consigo uma grande carga de conhecimento.  E na comunidade trans isso fica ainda mais complicado, é uma população que vive da beleza, do corpo e quando vai se chegando a uma idade mais avançada, há um destrato muito grande à pessoa idosa.  As travestis jovens acham quem não vão envelhecer. E infelizmente é o que acaba acontecendo elas morrem muito cedo.  Mas acredito que é uma maldade muito grande essa multiplicação dessa não valorização referente aos idosos, independente da orientação.  Essas gerações esquecem amassamos muitos barro para que hoje elas estejam na esquina.  Se não fosse por nós ter aguentando diferentes tipos de humilhação e estigmas na época do surgimento da AIDS por exemplo, alguns direitos conquistados hoje como nome social, acesso à saúde, nos espaços educacionais e o próprio lugar da rua, essa mais novas não poderiam acessar. Se não fosse pelas resistência e enfrentamento das pessoas mais velhas. A beleza é efêmera, se acaba, mas o que fica é o que somos.  Minha velhice é eterna, minha juventude não foi.  Eu sou muito mais feliz hoje aos 62 anos do que aos 18 anos onde eu não sabia se iria amanhecer morta, se iria ser a próxima vítima. E hoje, eu me sinto muito mais feliz por estar passando para elas, algumas coisa boas e também aprendendo por que não sabemos tudo.  Mas essa relação entre as gerações precisam melhora.  No caso das pessoas trans idosas, não existe uma política ainda de amparo a essa pessoas nas suas velhice, por exemplo uma casa de apoio que acolha essa pessoas como elas são. Pois quando precisam elas tem que se refazer em uma identidade que não condiz com aquilo que elas lutaram para ser a vida toda.  Ou então voltam para casa da família de onde foram expulsas com a condição de só serem aceitadas conforme nasceram e muitas são obrigadas a voltar para o armário.  É possível que mais travestis envelheçam, e eu sou a prova viva disso, mas é uma luta constante para continuar se afirmando como pessoas travestis e trans.  Hoje eu consegui juntar meu corpo minha mente e minha alma no que eu sou hoje, uma senhora de idade feliz que está à frente do movimento

Campanha ANA:  Como você acha que as organizações sociais e também as pessoas podem contribuir para que mais pessoas da comunidade LGBTTs, sobretudo o grupo que menor tem expectativa de vida?  O que pode ser feito mudar esse cenário?
Anyky Lima: Acredito que tocar nessa questão da terceira idade, a velhice da pessoa LGBT. Pois quando a pessoa é nova, tudo é festa e fantasia.  É preciso refletir sobre como os jovens. Também é preciso refletir sobre as casa de apoio que hoje geralmente estão ligadas as questões religiosas e sabemos que a população lgbt não é bem vinda na sua forma de ser nesses espaços. Nesse espaço se a pessoa não condiz com seu sexo biológico não são aceita e isso acaba constrangendo fazendo com que essa população se afaste de apoios que são necessários para sua sobreviver com dignidade.  Por exemplo quando pessoas travesti e trans são dependentes químicos, não são aceitos nessas organizações de apoio. Já vi situação de profissionais não atenderem uma travesti alegando que não estava com a roupa adequada. Acredito que o mais importante é o atendimento e não como ela ou ele está vestido.    Isso faz com que as pessoas se sintam um lixo... Penso que precisamos sim pensar nas novinhas que estão na rua, sofrendo sendo assassinadas e dar toda a orientação, mas também é preciso cuidar daquelas que conseguiram sobreviver e as organização tem que ser esse espaço que elas sejam tradadas com dignidade, de uma maneira humana.  E as travestis diferente do que muitos pensam elas sofrem de várias doenças, não só com HIV/AIDS. Tem Pressão alta, Parkinson, doenças da velhice sabe? E na maioria das vezes não são bem tratadas.  E quando as meninas são novas elas geralmente conseguem seus dinheiros, já as com mais idade quando consegue a duras penas ter uma casa e dali tirar seu ganha pão é chamada de cafetina, ou seja volta a ser marginalizada.  Hoje existe algumas organizações de apoio como o Ministério Público as ONGS que tentam de alguma maneira auxiliar todas nós, muitas vezes é demorado por que ainda estamos nesse lugar de marginalizadas. E as organização precisam pensar sobre essa população de Travestis e Trans para que possamos tirar essa comunidade da margem da sociedade.

Campanha ANA:  E para os adolescentes e jovens, sobretudo aqueles que estão descobrindo suas identidades afetivas e sexuais qual a dica o conselho que deixaria? 

Anyky Lima:  O que eu digo para todas (os) adolescentes que é preciso ocupar os espaços de tomada de decisão. Precisam se posicionar para que a gente avance. Mas com muito cuidado e não ser agressivos nessa construção.  Outro ponto importante é dizer da prevenção. Que se previnam, pois não só do HIV/AIDS mas de várias outras doenças. Meu recado é dizer para a pessoas mais jovens que vivam uma vida plena, cuidando do corpo, da alma e ocupando os espaços e se colocando sempre na luta. Curta a vida com sabedoria e não se esqueçam de oportunizar na luta cotidiana caminhos e espaços para mais pessoas travestis e transexuais. Sem "closes", porque nossa luta é por acesso a direitos e deveres para todas.


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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Defender direitos e reafirmar identidades - Entrevista com Luanna Marley

 Campanha ANA: Quem é a Luana, Quais suas lutas, questões pessoais e profissionais que a constituem? Compartilhar conosco o que desejar. 

Luanna Marley:  Lutas, questões pessoais e profissionais é um tripé que me move cotidianamente. Desde cedo percebia e me tocavam as questões de opressões que vivenciei desde a infância. As situações “camufladas” de racismo na minha infância, como por exemplo eu internalizar que meu cabelo era ruim ao passo que “mangava” das minhas colegas negras até questões relacionadas a minha sexualidade, onde eu me sentia errada e pecadora por querer brincar com “brinquedos de meninos”, ou até mesmo minhas “apaixonites” platônicas pelas minha coleguinhas. Estas duas dimensões que ora me causavam incompreensões, ora indignação marcam a minha trajetória em todas as fases da minha vida. Na adolescência quando me vi como lésbica e assumi isso para mim, especialmente, foi uma questões estruturante que compôs uma batalha interna comigo e os meus desejos, e com a minha família, onde fui compreendendo que na realidade a questão não era EU mas a sociedade que historicamente é cruel, preconceituosa e reforça a dor e o sofrimento daqueles e daquelas que não estão de acordo com os tais “padrões sociais”, ou seja, aqueles/as que não são brancos, heterossexuais, cristãos...e por aí vai, vivenciam situações cotidianas (veladas e explicitas) de violências e opressões. Comigo não foi diferente. Entretanto, existiram dois espaços fundamentais que me acolheram e me fortaleceram: o movimentos LGBT e os movimentos feministas. A articulação entre militância política, academia e experiência profissional sempre compuseram, simultaneamente, a minha formação e atuação nos diversos espaços. Ao passo que havia ingressado na faculdade de Direito, à mesma época me descobri militante do movimento feminista e também no movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), o que contribuiu para traçar um olhar e reflexões críticas sobre o Direito, bem como acerca do sistema de justiça brasileiro. Esta relação colaborou para o desenvolvimento de estudos e pesquisas sobre Direitos Humanos, com ênfase em Gênero, Feminismo, direitos LGBT, movimentos sociais e políticas públicas. Enquanto estava na Universidade pude aliar esta dimensão com a experiência profissional, ao iniciar um trabalho junto à Coordenadoria de Diversidade Sexual e, posteriormente, assumindo a coordenação de Política de Defesa de Direitos Humanos, ambas da Prefeitura de Fortaleza, abrindo assim caminhos para mais um tema que passou a compor minhas reflexões: as políticas públicas. A experiência profissional alinhada à militância contribuíram para que fossem despertados em mim o interesse em compor alguns espaços ligados à Universidade, mas também outros voltados para repensar a academia, sua relação com a sociedade e os movimentos sociais, como o Observatório de Políticas Públicas da Universidade Federal do Ceará e o Instituto de Pesquisa Direito e Movimentos Sociais (IPDMS). Pensando a Universidade voltada para a sociedade, cooperei, enquanto Professora-Pesquisadora (2013 -2015) na implementação dos cursos "Educação em Direitos Humanos" e "Gênero e Diversidade na Escola" do Instituo UFC Virtual, Projeto de Extensão da Universidade Federal de Fortaleza em parceria com o Ministério da Educação, que teve como objetivo realizar o aperfeiçoamento acerca destes temas junto aos movimentos sociais e professores da rede pública de ensino. A formação acadêmica, juntamente com a experiência profissional também foram determinantes na minha atuação nos direitos humanos, no pensar criticamente este tema e descobrindo outros paradigmas, paradigmas estes que partem do diversos saberes, em especial o saber popular, e consequentemente, pensando o Direito, a partir do direito achado na rua. Em 2012, torno-me integrante Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares –RENAP. Em 2014, como advogada popular, compus a equipe da Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar da Assembleia Legislativa. O pensar – produzir – atuar na área dos direitos humanos na perspectiva da assessoria jurídica popular, enquanto teoria e prática emancipadora, envolve e completa (mas não se encerra), onde recentemente passei a viver em Brasília para focar também na academia ao ingressar no Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania na Universidade de Brasília. A dimensão da atuação política-acadêmica e profissional, se configura como uma parte importante do que eu faço, uma vez que é fundamental trazermos aportes teóricos conectados com os ativismos negro, feminista e LGBT, não só contribuído para uma profunda reflexão sobre a sociedade, mas também para as lutas sociais e populares. Há uma potência nas Universidades públicas enquanto produtora de conhecimento, e a utilização destes conhecimentos como instrumentos de enfrentamento contra as violações de direitos humanos, por isso, também, neste atual cenário, as universidade públicas tem sido alvo de ataques pelo governo golpista.

Campanha ANA: Você faz parte da RENAP, o que faz essa rede e como as pessoas e organizações podem acionar?


Luanna Marley: A Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares – RENAP, é um rede que articula advogadas e advogados de direitos humanos que atuam para e com os movimentos sociais, grupos e comunidades que vivenciam as violações sistemáticas de direitos humanos. Nossa atuação se baseia no que chamamos de Assessoria Jurídica Popular, que consiste no trabalho desenvolvido por advogadas/os populares, estudantes, educadores/as, militantes dos direitos humanos em geral, entre outros/as. Assim, temos o objetivo de viabilizar um diálogo sobre os principais problemas enfrentados pela população para a realização de direitos fundamentais para uma vida com dignidade
, seja por meio dos mecanismos oficiais, institucionais, jurídicos, extrajurídicos, políticos e da conscientização. É uma prática jurídica insurgente desenvolvida principalmente no Brasil, nas décadas de 1960 até hoje. A RENAP já existe há 22 anos, iniciando na atuação por direito à terra e território, no seio das lutas por reforma agrária e hoje em dia tem ampliado a sua atuação com temas estruturantes como o enfrentamento ao racismo, ao machismo, à LGBTfobia e ao capitalismo. A assessoria jurídica popular pode propiciar uma nova cultura jurídico-social, na qual prevaleça o respeito à diversidade, às identidades, aos contingenciamentos, às necessidades, às limitações e ao desejo por mudança na sociedade. Estamos em vários estados brasileiros, temos uma página oficial https://www.renap.org.br, onde podem entrar contato conosco. No Estado do Ceará, por exemplo, as pessoas podem entrar em contato, seja através do facebook, seja através do e-mail: renapceara@gmail.com

Campanha ANA: O Brasil é signatário da declaração dos Direitos Humanos, nesse sentido o poder judiciário brasileiro considera esses direitos para as causas que juga, ou ainda é preciso lembrar juízes e promotores do que o brasil é signatário?


Luanna Marley: Infelizmente, a todo tempo, precisamos lembrar ao sistema de justiça sobre a declaração dos Direitos Humanos e inclusive sobre a própria Constituição. Enfrentamos ainda, inúmeras decisões, e atuações do Ministério Público, que desconsideram a dignidade humana, os direitos fundamentais, mas não só isso, se utilizam das normas para uma aplicação da lei de acordo com as suas conveniências, interesses e olhares moralistas, conservadores, LGBTfóbicos, machistas e racistas. O que é de extrema gravidade! Não à toa que inúmeras famílias- comunidades, juntamente com crianças, idosos e mulheres grávidas- são removidas e despejadas de suas casas, vivenciando a violência do Estado. Não é à toa que o Brasil está entre os três países que mais encarceram no mundo, onde a maioria é composta por pessoas negras e pobres. As mulheres são severamente e duplamente punidas pela sistema de justiça, quando cometem alguma infração penal ou crime. E quando são vítimas, por exemplo em casos de estupros, também são colocadas como culpadas por terem vivenciado este crime contra a sua dignidade sexual. Posso citar como exemplo, atualmente, pareceres do Ministério Público que são extremamente transfóbicos e que pedem que o juízes neguem o direito de travestis e transexuais terem os nomes pelos quais desejam ser chamadas e de acordo com o gênero que elas e eles se identificam. Ou seja, temos uma coleção de casos em que o próprio sistema de justiça não só não reconhecem os direitos humanos, mas também promovem violações.

Campanha ANA: Você enquanto advogada considera a defesa dos direitos humanos ainda dificultosa no Brasil? E se sim, por que dessa dificuldade?

Luanna Marley: Este ainda é um grande desafio para a nossa atuação, sobretudo, nos últimos dois anos, onde está escancarada por parte destes que estão no poder as tentativas de revogação de direitos
historicamente conquistados pela população. Assim, houve um profundo agravamento das violações
de direitos humanos, promovidas tantos pelas instituições públicas (desde da violência institucional por parte das polícias, situações de torturas até as decisões judiciais) como pela a sociedade que tem atuado não somente nas redes sociais, mas o ódio e as discriminações tomaram também proporções de agressões físicas e extermínio de mulheres, travestis, jovens negros, violência sexual contra crianças e adolescentes, linchamentos, dentre outros. Esta dimensão do ódio é dia a dia alimentada por parlamentares, pela mídia em um jogo onde a “ciência”, “mercado” e a “fé” andam de mãos dadas como força motrizes que alimentam e legitimam as violências. O que é bastante preocupante! Existe um projeto político e econômico de poder que visa a manutenção das explorações e dominações dos corpos e da terra!

Campanha ANA: Por que tantas defensoras e defensores que lutam junto com os trabalhadores, o povo pobre, preto das periferias, com a mulheres e LGBTS, são alvos da repressão e assassinatos?

Luanna Marley: O conhecimento e a emancipação tem na expressão das consciências e nas vozes que denunciam os instrumentos de luta contra aqueles que detém o poder econômico e político à custa do massacre da população negra, pobre, LGBT, das mulheres, jovens, crianças, adolescentes. Por isso que, como temos os argumentos de justiça e as resistências, e SIM, denunciamos, com o objetivo de transformação social, a forma medíocre e violenta para manutenção do poder deles – que querem manter o machismo, o racismo, a LGBTfobia, a propriedade privada e o lucro – é a perseguição, a criminalização dos movimentos sociais e populares, até o assassinato de defensoras e defensores de direitos humanos, afim de calar suas vozes que denunciam...suas lutas. É assim que agem os ruralistas, os senhores do agronegócio, parte do aparato policial, os especuladores imobiliários. Estes anos de 2016 e 2017 bateram recordes de assassinatos de defensores e defensoras de direitos humanos. Assassinatos, torturas e perseguições, como os que tem ocorrido com indígenas, quilombolas, feministas, ativistas pelos direitos de crianças e adolescentes, ativistas LGBT, bem como pesquisadores e pesquisadoras de Universidade Públicas. Aqueles e aquelas defensores e defensoras que perderam suas vidas estão mais presentes do que nunca nas nossas lutas, seja onde for!

Campanha ANA: Como podemos avançar nas lutas sociais sem necessariamente entrar no terreno do judicialização?


Luanna Marley: Na realidade, tenho dito que temos que avançar por caminhos para além das institucionalidades, uma vez que vivemos momentos e contornos políticos que se assemelham a ditadura civil-militar de 1964, não só pelos discursos, mas pelas legislações autoritárias que mascaradas pelas ideologias fascistas, promovem formas políticas e materiais de manutenção do poder que tem como consequência mortes físicas, psicológicas e simbólicas daqueles/as que para eles são corpos inferiores (que não importam). Falo de um projeto neoliberal e conservador! O executivo, legislativo e com o aval do judiciário contribuem e promovem estes contornos. Interessa a eles - falo
“eles” porque sua maioria é de homens a serviço de e para homens brancos, ricos e ‘cristãos’- a manutenção deste sistema político que coloniza, que é racista e machista, que ataca a Democracia, os direitos sociais, como os trabalhistas e, agora, a previdência. Ora, não é á toa que são estes que defendem a escravidão, o recolhimento da mulher ao âmbito privado (política da bela, recatada e do lar), não é à toa que eles (sobretudo, os fundamentalistas religiosos) inventam um termo chamado “ideologia de gênero”, como forma de confundir a população para que não se avancem as discussões de gênero e de diversidade sexual. O que isso quer dizer? É que estes fanáticos, através de mitos e mentiras, tem promovido o ódio as mulheres e LGBT, tentando barrar temas importantes como o combate à violência contra as mulheres e a garantia dos direitos sexuais e direitos reprodutivos. Por isso que as RUAS ainda são os nossos espaços, é a nossa arena pública e de luta na busca por justiça e igualdade.

Campanha ANA: Há algo mais que que gostaria de colocar?

Luanna Marley: Vamos à LUTA!



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domingo, 10 de dezembro de 2017

Entrevista: Resistir e lutar... O bem viver das mulheres é também o bem viver das crianças! Com Lola Aronovich.


Campanha ANA: Lola, nos conte um pouco sobre você, lutas, questões profissionais, enfim o que desejar compartilhar.

Lola Aronovich:
Meu nome é Lola Aronovich, tenho 50 anos, nasci em Buenos Aires, vim para o Brasil com menos de 4 anos, e sou naturalizada brasileira. Morei no Rio, São Paulo, Joinville, um ano em Detroit, e desde 2010 moro em Fortaleza. Do nordeste não quero sair mais. Fiz mestrado e doutorado em Literatura em Língua Inglesa na Universidade Federal de Santa Catarina, e hoje leciono na Universidade Federal do Ceará. Em janeiro de 2008 comecei um blog, o Escreva Lola Escreva, que se tornou um dos maiores blogs feministas do Brasil.

Campanha ANA:  Lola você tem um blog e nele você fala de diversos assuntos. E uma das pautas constantes é sobre a violência contra as mulheres. O seu blog é sua arma contra o feminicídio?

Lola Aronovich: Considero o meu blog, que está prestes a completar dez anos de idade – uma eternidade na internet – um blog pessoal, já que tem até meu nome no título. Mas como sempre fui feminista, desde criança, praticamente tudo que falo e escrevo tem este viés feminista. Portanto, imediatamente o meu blog foi definido como feminista. Lá eu falo de inúmeros assuntos, mas um dos mais frequentes é realmente o combate à violência contra a mulher. O feminicídio é um tema muito sério, que uma parte da mídia ainda comete o equívoco de chamar de “crime passional”. Os dados da ONU são alarmantes: 38% de todas as mulheres mortas no planeta são assassinadas pelo marido,
namorado ou ex-parceiro. Todos nós devemos lutar contra essa epidemia que ocorre em todos os lugares do mundo, não apenas nos países pobres.

Campanha ANA: Ao final deste mês começa mais uma edição dos 16 Dias de Ativismo contra a Violência de Gênero, mais precisamente o 25 de novembro que marca dia Internacional de Não Violência contra as Mulheres. Qual a importância você vê nesse momento, tanto na data quando nos dias de ativismo?

Lola Aronovich: É uma data muito importante, realizada no mundo desde 1991 e, no Brasil, desde 2003. A campanha internacional tem início no dia 25 de novembro -- data que marca o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres -- e vai até 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. É uma das datas mais importantes para os movimentos feministas, assim como o 8 de março (Dia Internacional da Mulher) e o dia 28 de setembro (Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto). São datas em que avaliamos conquistas e avanços, denunciamos retrocessos, e tentamos conscientizar a sociedade da necessidade de mudanças.

Campanha ANA: Você vê algum progresso que minimiza as relações dos sistemas de opressão das mulheres? É possível falar em avanços nos dias de hoje?

Lola Aronovich: Sem dúvida há muitos avanços. O feminismo é forte hoje. Em toda universidade, inclusive as particulares, tidas como mais conservadoras, há no mínimo um coletivo feminista, um coletivo LGBT, um coletivo do movimento negro. E, cada vez mais, alunas criam coletivos em suas escolas. Os conservadores ficam desesperados ao ver meninas de 11, 12 anos tão cheias de iniciativa e com tanta vontade de lutar. O feminismo é tão forte que nós ativistas somos atacadas diariamente. Estamos vivendo tempos sombrios, em que um governo que não foi eleito nas urnas (e, com essa agenda, nunca seria eleito) aproveita o Congresso mais reacionário dos últimos 50 anos para aprovar várias leis que tiram direitos de trabalhadoras e trabalhadores. O fim da Previdência, o fim dos direitos trabalhistas, a falência programada do SUS, o desmantelamento das instituições de educação públicas, são péssimos para todos os brasileiros, mas pior para as mulheres e negros. E os deputados fundamentalistas cristãos estão empenhados em proibir o aborto no Brasil em todos os casos. Imagina uma mulher ou menina ser estuprada e engravidar e ser forçada a parir o filho do estuprador. Ou uma mulher que corre risco de vida ao prosseguir com a gravidez ser obrigada a prosseguir, já que, para os
conservadores, um feto é muito mais importante que uma mulher adulta. É este o pesadelo que estamos vivendo.

Campanha ANA: Diante de todo esse cenário de violência que vivemos, o que podemos fazer ou mesmo enfatizar enquanto indivíduos e instituições para enfrentar mazelas?

Lola Aronovich: Acho que todas as transformações passam pela educação. Não só educação nas escolas e universidades, mas através da mídia, no dia a dia. O mundo é dos jovens. Todo jovem tem que ser idealista, tem que acreditar que tem poder pra mudar.

Campanha ANA: Qual a melhor maneira de uma mulher agir em relação a violências, sejam domésticas, sexuais e ou no campo profissional?

Lola Aronovich: O importante é não se calar. Denunciar a violência nem sempre funciona, mas é necessário. Também é fundamental se unir a outras mulheres, exercer sua sororidade. Uma mulher
pode aprender muito da experiência de outras mulheres.

Campanha ANA:  Em um dos seus posts no blog, você cita a experiência de Nairóbi, no Quênia, onde os meninos são ensinados a respeitar as meninas. Você acredita que essa também possa ser uma aposta brasileira para diminuir a violência de gênero?

Lola Aronovich: Sem dúvida. Esta é uma proposta nossa faz tempo: que questões de gênero sejam discutidas em sala de aula. Aliás, isso está nas diretrizes nacionais muito antes dos reacionários começarem com o fantasma que eles inventaram de “ideologia de gênero”. Não tem como melhorar a sociedade sem melhorar a vida das mulheres nesta sociedade. Quando se melhora a vida das mulheres, melhora-se também a vida das crianças.

Campanha ANA:  Como as organizações que atendem crianças e adolescentes podem contribuir no seu cotidiano contra as violências cometidas às mulheres?

Lola Aronovich: Em primeiro lugar, ouvindo e acreditando nas mulheres. Já existem muitas organizações que fazem isso, e evidentemente devem continuar o bom trabalho. Mas cada um de nós
pode fazer a sua parte, se posicionando todos os dias contra o machismo, o racismo, a homofobia e tantos outros preconceitos.

Campanha ANA:  Por fim, há alguma questão que gostaria de acrescentar?

Lola Aronovich: A internet é uma ferramenta poderosa para todos nós. Em vez de espalhar ódio, como tantos fazem, vamos divulgar conteúdo de quem luta para mudar o mundo. E vamos criar o nosso próprio conteúdo. Sem temer.

Acesse o Boletim   

domingo, 19 de novembro de 2017

Entrevista, O corpo com potência com Cinthia Sarinho.

Campanha Ana: Cínthia nos conte um pouco sobre você: Relações profissionais, de militância, enfim o que achar que é interessante compartilhar.

Cínthia Sarinho: Sou formada em Psicologia com Especialização e Licenciatura, pesquisadora das infâncias, Mestranda em Educação pela UFRPE e Mobilizadora do Canal Futura. Desde o início da minha formação acadêmica tenho uma aproximação com as questões ligadas às infâncias, mas foi enquanto Mobilizadora do Canal Futura, lugar de onde hoje falo, que fiquei ainda mais próxima, a partir do Projeto Crescer sem Violência do qual muito me orgulho de fazer parte. Ao longo dos últimos dez anos, tenho atuado nas causas ligadas aos direitos humanos de crianças e adolescentes, especialmente no que se refere às violências sexuais e trabalho infantil. Foi em 2007 que tive o primeiro contato com a Rede de Combate às Violências Sexuais contra Crianças e Adolescentes em Pernambuco, hoje conhecida como Rede de Enfrentamento. A partir daí, passei a integrar a Rede representando o Canal Futura como organização membro, atualmente participando também de outras redes e fóruns de proteção à infância, a exemplo do FEPETIPE, Fórum DCA PE e Rede Ecpat Brasil (representando a Rede de Enfrentamento PE). Essas experiências e a atuação no Projeto Crescer sem Violência em diferentes estados do país, têm contribuído significativamente na minha formação pessoal, acadêmica e profissional. O compromisso com a causa vai além da relação profissional, é o sentimento de indignação que move e fortalece essa luta, que faz acreditar que é possível sim um mundo mais justo e solidário em que crianças e adolescentes sejam protegidos e tenham os seus direitos garantidos.


 Campanha Ana: O projeto Crescer sem Violência encabeçado pelo Canal Futura vem contribuído com a discussão e criando ferramentas metodológica para enfrentar a violência sexual contra crianças e adolescentes.  E sua nova aposta é a série de vídeos que vai discutir o corpo. Quais as potencias e desafios dessa nova fase do projeto?

Cínthia Sarinho:  Em 2009 o Canal Futura assumiu o desafio de desenvolver ações e projetos para o enfrentamento das violências sexuais contra crianças e adolescentes. Na primeira fase, a série de interprogramas televisivos “Que Exploração é essa?” foi produzida pelo Futura em parceria com a Childhood Brasil de forma colaborativa com mais de 30 organizações de três estados brasileiros que militam pela causa e atuam na acolhida de crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual. Seguindo nessa mesma direção, em 2014 um convênio firmado entre o Canal Futura, a Fundação Vale, Unicef Brasil e Childhood Brasil, em âmbito nacional, deu origem ao projeto “Crescer sem violência”, que igualmente visa disseminar informações de qualidade e metodologias de enfrentamento às diferentes formas de violência sexual contra crianças e adolescentes. Nessa etapa demos ênfase no combate ao abuso sexual de crianças e adolescentes, através da produção da série de programas “Que abuso é esse?” em diálogo com instituições de referência  no assunto, produção de Kits educativos e implementação piloto com formação de profissionais da rede de proteção à criança e ao adolescente em diferente estado e regiões do país. Em 2016, dando continuidade à parceria com Unicef Brasil e Childhood, iniciamos a terceira etapa do projeto com o processo de pesquisa e produção da série “Que Corpo é esse?”, que abordará através de uma linguagem lúdica e criativa as questões relacionadas ao desenvolvimento da sexualidade em suas diferentes fases da vida, além da prevenção contra possíveis doenças sexualmente transmissíveis e violências sexuais. Dessa forma acreditamos que, a partir da ilustração de situações cotidianas vividas por crianças e adolescentes, nas diferentes fases de seu desenvolvimento abordadas na série, contribuiremos para desmistificar tabus e dúvidas. O principal desafio é contribuir efetivamente para autoproteção de crianças e adolescentes e o enfrentamento às violências sexuais, fortalecer a Rede de Proteção dos Direitos da criança e do adolescente e envolver as escolas nessa luta que é de todos nós.

Campanha Ana: Para você, o corpo é mesmo uma potência? Porque? 

Cínthia Sarinho: Compreendemos o corpo como potência, principalmente no que se refere ao desenvolvimento de crianças e adolescentes. É através do corpo que expressamos nossos sentimentos desde a primeira infância, os medos, as dores, as sensações de prazer e alegria, mas é esse mesmo corpo que também é extremamente vulnerável. Em se tratando das questões relacionadas às violências sexuais, sabemos que essas deixam marcas profundas, psicológicas e físicas. E é considerando essa potência que se faz necessário compreender também a necessidade de cuidado e proteção com os corpos das crianças e adolescentes.

Campanha Ana: Como vocês da equipe do Canal Futura identificaram que era necessário uma serie que desmitificasse os tabus em torno do corpo e seu desenvolvimento?  De onde veio essa demanda? 

Cínthia Sarinho:   Essa demanda veio da própria Rede de Proteção e organizações de referência que atuam na temática. Foi a partir das experiências anteriores de implementação das séries “Que Exploração é essa?” e “Que Abuso é esse?” que ficou evidenciado que para atuarmos na prevenção e no enfrentamento às violências sexuais, era necessário trabalhar as questões ligadas ao corpo e sexualidade. Para que uma criança e adolescente possam se proteger de situações de violência, sobre tudo o abuso sexual, é preciso antes de tudo, conhecer o seu próprio corpo, e saber identificar um carinho, diferenciar um toque de afeto do toque abusivo, e isso só é possível com a educação sexual para a autodefesa e autoproteção.
O Futura acredita na construção coletiva do conhecimento e nesse sentido, se constrói no diálogo e parceria com diferentes grupos e organizações sociais. Na produção de conteúdos audiovisuais e projetos desenvolvidos não é diferente, nesse sentido estabelece diferentes estratégias para a produção colaborativa dos conteúdos produzidos. No caso das séries audiovisuais (“Que Exploração é essa?”, “Que Abuso é esse?” e “Que Corpo é esse?”) que integram o Projeto Crescer sem Violência, trilhamos o mesmo caminho, realizamos fóruns temáticos com a participação de organizações e profissionais de referência na temática para uma escuta qualificada das questões relacionadas às violências sexuais e proteção à infância. A série está em fase final de produção e logo estará
disponível como mais uma ferramenta para a promoção de direitos e proteção de crianças e adolescentes.

Campanha Ana: As crianças e adolescentes que conhecem os aspectos físicos do corpo e seu desenvolvimento são menos vulneráveis serem vítimas da violência sexual? 

Cínthia Sarinho: As crianças e adolescentes que conhecem o seu corpo e que tem em casa ou na família um ambiente protetor, que conversam com os pais e responsáveis sobre autoproteção, corpo e sentimentos, que sabem diferenciar um carinho de toques abusivos, crescem sem dúvida, mais seguras e menos vulneráveis à violência sexual. E se por ventura se depararem com alguma situação ameaçadora, saberão se autoproteger e pedir ajuda à alguém de sua confiança. O diálogo é o melhor caminho para que crianças e adolescentes cresçam seguros e protegidos das violências sexuais, garantindo dessa forma o seu desenvolvimento pleno e saudável.

Campanha Ana: Por que essa Educação corporal é tão negligenciada nas organizações de ensino?

Cínthia Sarinho:  Acreditamos que, além dessa não ser uma prioridade nas políticas públicas de educação, o que ocorre é uma dificuldade de abordagem do tema. A falta de formação em educação sexual certamente contribui para que esse seja um tema não abordado frequentemente na escola. Questões relacionadas à sexualidade ainda são um tabu para muitas pessoas, pois culturalmente há uma resistência e muitas vezes insegurança em tratar o tema, pensando que não é assunto para criança e adolescente. É necessário compreender que esse é um tema presente na vida de todas as pessoas desde o nascimento, e que precisa ser tratado com naturalidade, sem tabus e preconceitos. Nesse sentido, família e escola têm um papel fundamental na construção de ambientes seguros e que promovam a autoproteção de crianças e adolescentes.

Campanha Ana: Qual a contribuição as organizações sociais que atuam com crianças e adolescentes podem realizar nessa perspectiva do conhecimento do corpo, da sexualidade e do desenvolvimentos de meninas e meninos?

Cínthia Sarinho:  Historicamente as organizações sociais que atuam na prevenção e no enfrentamento às violências sexuais contra crianças e adolescentes, pautam seu trabalho nos direitos sexuais de crianças e adolescentes, considerando esse como um direito humano para um desenvolvimento da sexualidade saudável e protegida, garantindo assim a proteção de crianças e adolescentes. Além das organizações sociais, diferentes ferramentas a exemplo do Manual da ABRAPIA (2002), o Plano Nacional de Enfrentamento às Violência Sexual (Secretaria Especial de Direitos Humanos – SEDHA, 2000) e o Guia Escolar: Identificação de sinais de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes (Santos & Ippolito, 2011), citam a importância da Educação Sexual como “a melhor forma de prevenção” e importante estratégia a ser desenvolvida na escola e outros espaços educativos. Nesse sentido vale ressaltar a importante contribuição que essas organizações vêm dando na produção de conteúdos, publicações, diferentes materiais pedagógicos e ações educativas voltadas para que crianças e adolescentes conheçam o seu corpo e os limites, para que possam se proteger e defender de situações abusivas e de violência.

Campanha Ana:  Há alguma outra questão que gostaria de reforçar?

Cínthia Sarinho:  Importante reforçar que essa é uma luta de todos nós, que a família e a escola têm um papel fundamental na promoção de direitos de crianças e adolescentes, e segundo o Art.227 da Constituição Federal de 1988 - “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. Por fim, lembrar que, no Enfrentamento às Violências Sexuais, o melhor caminho é a informação, a prevenção e a promoção da Educação Sexual para que crianças e adolescentes sigam protegidas.



Veja O boletim   na Integra: 


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Entrevista: Nem Mulher, nem homem ... Pessoas Não Binárias e sua forma de existir no mundo!

Aroma Bandeira é feminista, cineclubista, está sendo educadora social, pretende ser anarquista, é uma pessoa não-binária, bissexual e militante LGBTQ. Para Aroma Bandeira cada lugar desses representa uma construção em mim, não foi me dada a priori. Aroma foi se observando, se investigando, e daí construído os seus lugares que tem como referência. 


Campanha Ana: Você é uma pessoas que se considera não binaria?  E a partir de quando você começou a   se reconhecer nesse lugar?

Aroma Bandeira: Sou uma pessoa não-binária. Talvez eu seja desde sempre, como todas as identidades de gênero. Mas há uma grande diferença: quando eu nasci, as pessoas não disseram isso. Me jogaram numa caixinha de "menina", e parecia somente haver uma outra, de "meninos". Por algum tempo na minha vida eu não pensei muito sobre isso. Eu tinha uma vida de criança em que não era necessário "se afirmar". Uma vida privilegiada, talvez. Andréa, com quem eu vivia, não me obrigava a chama-la de mãe, e eu ainda não chamo, chamo-a pelo nome, e a respeito muito. Ela é mulher cis e militante marxista, e achou engraçado quando a primeira gíria que eu quis aprender foi "cara". -Nossa, cara, a
festa foi super legal. Afinal, havia muito da cultura norte-americana onde todos/as são -man. E mesmo quando eu preferia me vestir com roupas folgadas, bermudões e blusões, eu saia junto aos meus primos meninos nas ruas cantando “Vamos amigos, lute” (Edson Gomes, 1995). Eu tinha 10 anos, era tudo muito possível e, como eu deixava que a minhas tias me colocassem brincos com lacinhos de fita de cetim, ninguém ligava muito para o que eu estava vestindo. Então eu pude ser sem pensar. Mas ai, com a adolescência, vieram as pressões. Não tanto pelas roupas, mas cadê os namoradinhos. As tias não me perguntavam cadê a namoradinha, e eu percebi só aos 22 anos que as queria também uma menina, numa festa, me conduziu pela mão e eu queria que ela nunca mais me largasse. Os namorados, desde os 15 me permiti tê-los. Eu estava num colégio no centro da cidade, aprendi a beber e ir a festas na rua com um cara, um grande amigo, negro e conhecedor de todos os picos e amigos, com quem fiz sexo e parceria. E ele aceitava a minha regra: não havia penetração. Eu não lhe expliquei porque não precisava, ele me respeitava e a gente se amava. Mas com o próximo, aos 17, eu tive de dizer e explicar: penetração era para garotas, e eu não era uma garota. Nesse momento eu alternava entre roupas compradas na parte feminina e masculina das lojas de departamento. Eu usava os cabelos compridos, sem muito volume, mas eu sabia que não era uma garota. Vergonhosamente eu precisava dizer que eu não tinha um pinto. Então eu estava ali, tirando a roupa para garotos e eles não podiam achar meu pinto. Quis explicar pro namorado dos 17 anos que eu realmente não era uma garota, que não importava se meu corpo não parecia, mas eu era um menino, e que não fazia penetração. Ele não me escutou e me estuprou. Eu chorava e tentava empurrá-lo. Ele chorou quando eu lhe gritei que ele tinha mesmo me estuprado. E eu tive muita raiva do choro dele. Depois disso eu estava na faculdade. Aprendi a gostar de penetração, a gozar muito, e a ser militante LGBT. Eu me considerava um gay, mas não me vestia como um cara. E era tudo muito confuso, até pra mim. Afirmava veementemente que era m garoto, nem eu acreditava direito nisso. Eu nem sabia explicar porque insistia sempre nisso, mas era importante fazê-lo, porque eu ficava muito triste quando permitia que me chamassem de garota. Nem mesmo de namorada. Me apresentava pelo meu nome, eu insistia e brigava. E foi nos estudos e pesquisas sobre pessoas trans, procurando mais depoimentos de caras trans, que eu encontrei o termo pessoas não-binárias. E tudo se encaixou. Olaf vai te dizer um pouco aqui, se quiseres escutar: 

C.Ana: O que é binário de gênero?

Aroma: Binário de gênero é um termo para os dois gêneros normatizados da sociedade ocidental cristã. Quiseram classificar todas as pessoas entre homem e mulher. Dizer que esta normatização tem relação com as divisões sexuais é completamente discutível (e inaceitável, na minha opinião): primeiro porque as identidades de gênero são, em parte, construídas como cada pessoa vê seu corpo biológico e psicológico, noutra parte, na relação entre o que a sociedade lhe oferece como parâmetro e o que ela impulsiona e tenciona de volta. Segundo porque a própria divisão entre dois sexos não é condizente com a totalidade das realidades dos seres, que estão além de feminino e masculino somente (quase ninguém fala das pessoas intersexuais, ou seja, que seus corpos possuem características ditas de ambos os sexos).
C.Ana: Mas não se nasce com um gênero?

Aroma: Então, não, as pessoas não nascem com um gênero. Elas se identificam ou não com o gênero que lhes é atribuído, de acordo com as normatizações vigentes na sociedade. E o melhor seria que as famílias aguardassem cada criança, em seu tempo, dizer-lhes quem ela é. Muitas sociedades consideram os gêneros não-binários como válidos. Outras, como a nossa, vem ignorando sistematicamente esta possibilidade. Dizemos do CIStema, ou seja, desta sociedade cisnormativa que quer excluir pessoas trans. E isso é bastante violento, não ter sua identidade reconhecida e ser classificada como louca, transtornada.

C.Ana: Qual é a diferença entre uma identidade não-binária e uma identidade binária?

Aroma: A diferença entre ter uma identidade binária e ter uma identidade não-binária é justamente esta: ser reconhecida socialmente. Ter o direito de se identificar sem ser taxada de anormal ou louca, de “querer aparecer”, de inventar histórias. Poder se reconhecer na outra, partilhar saberes, ter e receber empatia. O sistema que vivemos hoje é excludente. Ele elege categorias privilegiadas, que tem local de poder nas hierarquias, e joga todo o resto para a margem, na periferia, e isso acontece também com as categorias de gênero. Não quero ser representada na televisão a partir do olhar de homem cis heterossexual branco que ganha recursos e explora pessoas na fabricação de mentiras que chama de novela. Quero tecer nossos próprios espaços, nossos canais de comunicação, de trocas afetivas e afetadas.

C.Ana: Isso quer dizer que sua aparência não é feminina nem masculina?

Aroma: Quanto as vivências e aparências, cada pessoa não-binária tem (ou constrói) a sua, da mesma forma que qualquer pessoa binária. Quando o feminismo pauta que as mulheres têm muitas vocações e formas – que não são e não querem ser todas padronizadas no ideal romântico de mulher cis branca magra, por exemplo; isso também cabe às pessoas não-binárias. A maioria das pessoas não-binárias que conheço transitam entre uma aparência feminina e masculina e, para isso, usam tanto roupas masculinas quanto femininas. Mas não é verdade que todas tem passabilidade fluida. Por isso, a aparência, a escolha das roupas é uma preocupação quase sempre jogada às pessoas trans. Creio que é muito desleal dispor apenas dos padrões feminino e masculino, e jogar a culpa de não parecer suficiente nas pessoas não-binárias. Quando a maioria da população nos vê nas ruas, querem nos encaixar nas caixinhas predeterminadas de gênero, às quais não pertencemos e muitas vezes nem escolhemos. 

Veja  também o boletim  da campanha Ana com essa temática